sábado, 7 de dezembro de 2013

Neuropsicologia e Estimulação Cognitiva no Défice Cognitivo Ligeiro e Demências


A neuropsicologia estuda a relação entre o cérebro e a cognição e comportamento. As funções cognitivas, memória, orientação, linguagem e todas as que nos permitem funcionar no nosso dia-a-dia, alteram-se perante lesões ou doenças cerebrais, tais como as demências degenerativas (p.ex. Doença de Alzheimer).

Para se conhecer a gravidade dessas alterações é imperativo realizar uma avaliação neuropsicológica, que caracteriza as funções alteradas e mantidas e a gravidade dessa alteração (perfil neuropsicológico). Este perfil é importante para a decisão médica sobre a terapêutica farmacológica, para os familiares compreenderem os défices e o comportamento do doente e para a informação ao próprio doente, sendo indispensável para um programa terapêutico não-medicamentoso (reabilitação/ estimulação cognitiva) adequado ao doente. A colaboração entre médicos e psicólogos (neuropsicólogos) é fundamental para a compreensão dos casos e para a definição da intervenção. O objectivo da intervenção (farmacológica e não-farmacológica) é o de tornar a evolução mais lenta e permitir maior autonomia e independência, dando uma melhor qualidade de vida.

Na literatura encontramos resultados díspares referentes à eficácia da estimulação cognitiva, porque não existem estudos que comparem grupos de doentes com e sem intervenção e a metodologia de intervenção não é claramente definida. Em casos de suspeita de demência é fundamental que a estimulação se inicie numa fase precoce, de “Defeito Cognitivo Ligeiro” (DCL), pois o doente poderá aprender e desenvolver estratégias que serão úteis em fases avançadas. A junção dos dois tipos de intervenção, medicamentosa e cognitiva, será a metodologia ideal para um melhor resultado.

Em doentes com demência, as melhorias conseguidas são temporárias, pois as alterações das áreas cerebrais que suportam as funções cognitivas são progressivas e os resultados de qualquer intervenção terapêutica serão cada vez menos eficazes, o que não significa que a intervenção não seja necessária, mas é importante sabermos as limitações e que existem questões por responder (tempo de duração da intervenção e por quanto tempo se mantêm os resultados). Estas questões, colocadas pelos doentes e familiares, não têm uma reposta directa, pois cada caso responde de forma diferente e apresenta um perfil evolutivo diferente.

O neuropsicólogo deverá selecionar os casos que podem beneficiar da intervenção e a metodologia de intervenção mais adequada, a partir do perfil da avaliação neuropsicológica. Na fase de DCL a intervenção é, geralmente, individualizada, permitindo ajustes a programas pré-definidos, mas nas situações de demência em fase moderada/avançada a intervenção mais frequente usa metodologia de grupo. O desenho do programa de intervenção deverá ser explicado ao doente e aos familiares.

As sessões de estimulação cognitiva são realizadas duas a três vezes por semana, com duração de 60 minutos. Ensinar a usar uma agenda, onde marque tarefas diárias e factos a recordar é, geralmente, requerido aos doentes. A duração total da intervenção é variável (três, seis ou mais meses). O doente deverá realizar avaliações neuropsicológicas ao longo do programa de intervenção, para análise da evolução e reformulação do programa de intervenção. 

Os programas de estimulação incidem, principalmente, na memória, pois é das primeiras capacidades alteradas nos processos demenciais. A memória permite registar e recordar informação, prever acontecimentos e não esquecer o que temos para realizar no futuro. A memória é uma capacidade constituída por vários processos, que regula o nosso pensamento e constitui a nossa individualidade. Nem todos os processos mnésicos ficam alterados no início da demência, o que leva à perplexidade dos familiares “como é que ele não se lembra do que lhe disse há momentos atrás e depois lembra-se, melhor do que eu, das coisas da infância?”; isto significa que a memória não é um sistema unitário, mas formada por diversos sistemas, em que alguns estão alterados e outros intactos, sendo possível utilizar os intactos ou pouco alterados no processo de estimulação.

Será importante referir que, nem todos os défices de memória correspondem a demência e, nem todas as demências se iniciam por défice mnésico. Há casos de demência que se iniciam por dificuldades de linguagem, por dificuldades em programar movimentos ou por modificações de comportamento (diminuição da iniciativa ou desinibição). Todas estas modificações terão impacto no desempenho funcional da vida diária, pelo que a estimulação cognitiva tem como objectivo principal a melhoria da funcionalidade.

Na revisão da literatura, os estudos de eficácia da reabilitação cognitiva em doentes com “Demência” ou com “Defeito Cognitivo Ligeiro”, variam entre a opinião de que a reabilitação cognitiva tem um efeito realmente positivo no funcionamento cognitivo (Tsolaki M, 2011; Spector A, et al. 2003; Gatz M, et al 1998) ou que terá um efeito apenas marginal. Actualmente, o enfoque da reabilitação cognitiva, centra-se nos casos com “Defeito Cognitivo Ligeiro” (fase muito inicial de demência), com resultados demonstrando que, quando a intervenção se inicia nesta fase, se obtêm benefícios em capacidades específicas, no humor e na funcionalidade.

A intervenção em doentes com “DCL” pode ainda ajudar a lidar melhor com a incerteza do futuro e a aceitar a situação (Joosten-Weyn Banningh LW, 2011). Numa revisão sistemática da literatura sobre eficácia, com 15 programas de intervenção (de grupo ou individuais) em doentes com “DCL”, encontram-se melhorias estatisticamente significativas em 44% de medidas de memória, 12% de outras medidas cognitivas e em 49% de medidas de qualidade de vida e de humor (Jean L et al, 2010).

Apesar dos resultados mais recentes serem indicadores de benefício cognitivo e funcional para doentes em situação de possível evolução para demência, é necessário, numa perspectiva de investigação e clínica, melhorar a metodologia da intervenção, usando desenhos experimentais mais robustos e medidas de eficácia, de funcionalidade, de humor e de qualidade de vida, padronizadas e validadas para as populações em estudo.

Dra. Manuela Guerreiro
Psicóloga (Neuropsicologia) / Investigadora - Faculdade de Medicina de Lisboa
Membro da Comissão Científica da Alzheimer Portugal



Referências bibliográficas

  • Spector A, Thorgrimsen L, Woods B, Royan L, Davies S, Butterworth M, et al. Eficacy of an evidence-based cognitive stimulation therapy programme for people with dementia: Randomised controlled trial. Br J Psychiatry 2003;183:248-54.
  • Gatz M, Fiske A, Fox L, Kaskie B, Kasl-Godley JE, McCallum TJ, et al. Empirically validated psychological treatments for older adults. J Mental Health Aging 1998;4:45-8
  • Tsolaki M, Kounti F, Agogiatou C, Poptsi E, Bakoglidou E, Zafeiropoulou M, Soumbourou A, Nikolaidou E, Batsila G, Siambani A, Nakou S, Mouzakidis C, Tsiakiri A, Zafeiropoulos S, Karagiozi K, Messini C, Diamantidou A, Vasiloglou M. Effectiveness of nonpharmacological approaches in patients with mild cognitive impairment. Neurodegener Dis. 2011;8(3):138-45. Epub 2010 Dec 3.
  • Li H, Li J, Li N, Li B, Wang P, Zhou T. Ageing Res Rev. 2011 Apr;10(2):285-96. Cognitive intervention for persons with mild cognitive impairment: A meta-analysis. Epub 2010 Dec 2.
  • Stott J, Spector A. A review of the effectiveness of memory interventions in mild cognitive impairment (MCI). Int Psychogeriatr. 2011 May;23(4):526-38. Epub 2010 Oct 15.
  • Jean L, Bergeron ME, Thivierge S, Simard M. Cognitive intervention programs for individuals with mild cognitive impairment: systematic review of the literature. Am J Geriatr Psychiatry. 2010 Apr;18(4):281-96.
         Associação Alzheimer Portugal

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